segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

1º dia de viagem: 31/01/08

É uma noite fria aqui Londres. Esperamos nosso vôo para Itália, a passagem é só para o dia seguinte, o que implica em passarmos esta noite no aeroporto. `A espera, uma criança faz o que qualquer adulto deveria fazê-lo, já que é chato e cansativo esperar: extrai o melhor do momento presente e anula o que não tem utilidade: passa a correr e brincar. Cria um mundo só seu, onde os carrinhos de conduzir malas tornam-se seus carros possantes. Inventa outras brincadeiras, quase nenhuma delas compreendidas pela mãe, que passa a chamá-lo para perto, querendo mesmo é que se cale. Nesse contexto, é perceptível a facilidade que a criança tem de vivenciar de forma plena o momento presente, dando-lhe um significado, com uma grande diferença: não absorve e não vive o ruim daquele instante, muito pelo contrário, só o que é bom, desenvolvendo sua capacidade de ignorar o que não lhe serve. E porque não pode modificar os fatos, dá-lhes significado, extrai do fato inevitável e imodificável, uma utilidade. Pena que nós, perdemos esse jeito simples de transformar situações e extrair proveito delas. Gosto muito de uma frase inteligente que aprendi de um religioso: “se você não pode modificar um fato, deixe que este fato te modifique.”
Assim, quando o inevitável ocorrer e a princípio parecer perturbador e sem utilidade alguma, a grande arte e proposta cristã é dar-lhe um significado. Cristo era mestre nisso e ensinou-nos com diversos exemplos. Em muitas passagens bíblicas ele viveu a situação de forma a dar-lhe a importância devida. Sua experiência mais marcante, a meu ver, ocorreu em Getsêmani, num momento de grande agonia. Sabendo que seria capturado pelos guardas romanos e pressentindo todo sofrimento que teria pela frente, revestiu-se de sua humanidade e orou a Deus, rogando-lhe que, se fosse possível, minimizasse seu sofrimento. Sentiu medo, tristeza, solidão. Sentimentos tão humanos e que cansamos de experimentar.
A beleza dessa passagem bíblica deixa muito claro como tudo é transformável e que até a experiência mais dolorosa pode conter significado. Cristo, absorvendo-se do humano, aproveita os instantes de intensa agonia e passa a admitir seus medos, inseguranças e tristezas. Neste exato momento, santifica-se ainda mais. O ápice de sua humanidade se revela, e em conseqüência, diviniza-se ainda mais. A missigenação do humano e divino ocorrem, deixando um exemplo de vida para a humanidade. Suas palavras foram: “Minha alma está triste até a morte. Permanecei aqui e vigiai comigo”. E indo um pouco adiante, prostou-se com o rosto em terra e orou: “Meu pai, se é possível, que passe de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas como tu queres”.
Logo, aflorarmos o divino que já está em nós está intimamente relacionado com nossa capacidade de vivenciarmos plenamente nossas fraquezas, inerentes a nossa condição humana. Se nos momentos difíceis pudermos extrair algo de positivo, deixaremos que a dor nos ensine e fortaleça. Humano e divino são indissociáveis, muito pelo contrário, completam-se.
Olho de novo para a criança e percebo um sorriso que lhe vem de dentro e aponta em seu rosto. Percebeu que eu entrara em seu parque de diversões, não estava mais naquele aeroporto frio e chato sozinha. Sorri-lhe também, em resposta àquele olhar curioso e ingênuo, como que a dizer: - Vamos brincar?

3 comentários:

Duda disse...

Érikaaaaa...
Que lindo é muito bom fazer essa leitura e poder matar a saudade vendo vocês...Você sabe... ainda sou apegada a você(brincadeira rs)
Agradeço a cada dia esse novo rumo que minha vida esta tomando por ter conhecido vocês.
Muito Obrigada!!!!!
Um grande abraço para você e para o Carlos.
Namastê!!!
Eduarda.

rosamarson disse...

Queridos Carlos e Erika,

Tenho visitado todo dia este blog, para saber noticias de vocês....e pelo visto, chegaram bem. Graças a Deus.
Fiquei feliz em perceber que a viagem foi boa e que vocês estão vivendo um momento de grandes descobertas e transformações.
Tenho devorado seus textos, Erika, que estão ótimos, cheios de conteúdo e profundidade. Sinto-me conversando com você. Foi grande a idéia de mandar noticias via este blog.
Estarei sempre atenta, se precisarem de algo que eu possa ajudar, não se acanhem em solicitar.

Um beijo enorme,Namastê.

Rosângela Marson

ana vermelha disse...

carlos;
diz q amigo q é amigo está sempre presente com gestos,sorrisos e manias.Belíssimos textos da Erika feito com cuidado,carinho,humor e paciencia junto e dosado com muito encanto.A Nilcéia não só abre um sorriso mas tbm o coração tamanha a sua grandeza.Estamos indo muito bem.
Namaste!
Ana