quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Em Shantivanam 4

Vêm muitas crianças das vilas próximas no ashram pedindo ajuda para suas famílias, ou algo que queiram, de uma forma particular. Essa manhã havia duas meninas aqui todas arrumadinhas, com seus sáris, terceiro olho, cabelos trançados com flores, que aqui vieram pedindo um auxílio, pois queriam participar de um piquenique. Soubemos posteriormente que o ashram desenvolve inúmeros projetos sociais de ajuda às famílias carentes, dando-lhes alimento, educação, trabalho, constroem até casas para os mais necessitados. Mas como a carência é gritante, imagino ser praticamente impossível socorrer a todos os que precisem.

As mulheres indianas simplificam por demais suas vidas, pelo menos as que moram aqui no vilarejo, pois as de cidades maiores, como em Bumbai, onde estávamos, elas querem mais é ficar parecidas com as ocidentais, aposentando seus antigos sáris e aderindo às calças jeans. Assim, no ashram, já que se trata de um local mais retirado, elas vestem-se com seus sáris, cabelo trançado ou um coque, pés no chão. Gastos com manicure, preocupações em alisar os cabelos, essas coisas que tomam tanto nosso tempo no Ocidente não existem. No banheiro delas, o assento é diretamente no chão, como se fosse um vaso grudado direto no chão. Assim, sentam-se de cócoras, numa postura que nós, ocidentais, normalmente não conseguimos ficar, ou ficamos por muito pouco tempo, e assim resolvem seus problemas básicos. Imaginem nós, que mal conseguimos permanecer agachados dessa forma, num daqueles dias em que o intestino está lento, sem pressa. Você não sabe se agüenta a dor de barriga, ou a dor para suportar ficar na postura! Pois é. Mas, cientes das dificuldades ocidentais, em cada banheiro há pelo menos um vaso, dos que estamos acostumados a usar aí no Brasil. Percebi que elas não limpavam o banheiro que eu estava usando, só o delas. Perguntei, então, ao responsável pelo ashram se podia me arrumar algum produto para limpar e desinfetar o banheiro. Ele respondeu-me que não precisava, que eu deveria me ocupar com outras atividades, como limpar o templo, ajudar na cozinha, no jardim, etc. É tudo, em verdade, uma questão de ponto de vista, pois para eles meu banheiro não estava sujo. Cheguei à conclusão, também, que as indianas, assim como eu tenho um pouco de nojo do banheiro delas, elas tem nojo do nosso, pois devem imaginar, nossa, todo mundo senta ali, no mesmo lugar, depois se limpam com um papelzinho nojento!!!Pois elas costumam lavar-se depois de fazerem suas necessidades, pelo menos é o que eu imagino, pois há uma torneira e um baldinho próximo da fossa delas. Enfim, tudo depende do referencial, da forma como vemos o mundo. Para fim de conversa, descobri onde guardavam um desinfetante e dei um banho no meu banheiro. Agora, menos mal cheiroso, estou conseguindo usá-lo melhor. Essas questões são também de difícil adaptação por aqui. Eu só sei que nunca vou mais reclamar do banheiro do mercadão de Jacareí, ou das rodoviárias, limpinhos, limpinhos para os padrões indianos!

Abraços, com saudades!

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