Nossa rotina no ashram começa às 5 horas e termina às 21 horas, quando é feita a última oração e todos se recolhem. O espírito de silêncio está por toda parte. A recomendação é que não se converse durante as refeições, nem no templo e obviamente nem na sala de meditação. Tudo é muito simples e bonito. Muitas árvores, o som dos pássaros pode ser ouvido constantemente. Aqui há vaquinhas felizes, ontem mesmo não acreditei no que vi, uma vaca brincando, corria de um lado para o outro, perturbava as amigas e saia correndo, sinceramente eu desconhecia a diversão no mundo delas. Acho que toda vaquinha adoraria morar na Índia, até porque a maioria da população é vegetariana e elas estão a salvo dos churrasquinhos.
Todos os dias há missa. São cinco padres que se revezam na celebração, onde um ritual hindu se mistura ao ritual cristão por nós conhecido. Todos no chão, o próprio padre também senta-se de pernas cruzadas e num pequeno altar, faz toda ritualística, as oferendas e a consagração. Flores do próprio jardim do ashram são oferecidas a Cristo. A simplicidade provando que para expressar-se o amor por Deus devemos também ser simples. Ninguém se arruma para entrar no templo, devendo apenas se observar o respeito quanto a vestimenta. Homens e mulheres não devem estar com ombros de fora, nem se usa bermudas ou shorts. Para nós, turistas, há uma certa dificuldade no começo pois o calor está muito forte, uns 35 a 40 graus, imagino, e ficar de calça comprida o dia todo é de se estranhar. As mulheres que trabalham aqui vestem-se com seus sáris. Homens e mulheres que vêm de fora encomendam uma roupa que chamam de pijama, uma calça larga e uma bata, com golinha de padre. No dia seguinte a costureira já entrega pronto por um preço bem barato. Eu acabei por não fazer por achar a roupa quente demais.
A comida é bem diversificada, cada dia um menu diferente, com muita pimenta, é claro. O bom é que servem aqui café com leite e eles fazem também um pãozinho bem gostoso. O cardápio é lacto-vegetariano e três refeições ao dia são servidas.
Um dos padres ensina yoga e ontem fizemos uma aula sua. Muito atencioso, ensina a hatha yoga tradicional. Mas não há um horário específico de aulas, elas têm que ser agendadas antes. Contudo, espaço para prática não falta e o ashram por si só é inspirador, motivando-nos para a prática.
Todos os dias pela manhã há o período de seva, onde os hóspedes que desejam dividem-se em tarefas domésticas, como ajudar na cozinha, varrer os ambientes comuns, etc. Cada um também cuida da limpeza do próprio quarto, da louça que sujou durante as refeições e há uma boa torneira para se lavar roupas. A moda antiga, é claro, nada de máquina de lavar, centrífuga, a grande máquina são braços fortes.
Há estrangeiros do mundo todo. É curioso como pessoas vêm de toda parte, percorrem distâncias tão grandes para encontrar conforto no muito rudimentar. Ao meu ver, isso se dá porque na correria diária esquecemos com facilidade do essencial na nossa vida, entrega a Deus, que na yoga chamamos Ishivara pranidana. Há muitos que vêm pelo menos uma vez por ano para cá, parece que para resgatar a fé, recarregar a bateria espiritual. E aqui pode faltar o conforto a que estamos acostumados, mas a presença de Deus parece estar por toda parte. Na verdade, o ashram tem esse papel de recordar da presença do divino em cada indivíduo. Os agradecimentos constantes, pela manhã, tarde e noite, os cantos dos mantras, os namastês comumente dados pelos hindus, os sorrisos a cada olhar que se encontra, ainda que no silêncio, são grande prova disso.
Até a próxima!
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
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