domingo, 2 de março de 2008

Ramana 1

No ahsram onde estamos agora, estritamente hindu, o cotidiano é um pouco diferente. Rituais védicos todos os dias, pujas, cantos. Há uma sala de meditação aberta o dia todo que sempre está cheia. Mas por toda a parte vê-se alguém meditando: dentro do templo, nos jardins, em frente a túmulos de suames ou de imagens de deuses hindus por eles reverenciados. A foto do guru do ashram, Bhagavan Sri Ramana Maharishi, já falecido, está em todo lugar. Percorrendo uma trilha pela montanha, pode-se chegar a uma caverna onde ele permaneceu em silêncio por aproximadamente 20 anos, onde alcançou o Samadhi, ou realização em Deus.
A caverna é um recanto de paz. Lugar inspirador, pode-se ficar meditando sem perceber o tempo passar. Pessoas do mundo todo não medem esforços para estar neste lugar onde dúvidas inúmeras são respondidas intimamente. Fala-se por aqui que se deve fazer o trajeto todo em silêncio, focando nos obstáculos que você deseja remover para sua ascensão no progresso espiritual. O fato é que independente da religião, credo, convicções próprias, não há como se negar a energia espiritual que envolve a Montanha de Arunachala.
Os dias vão passando e a gente vai vivendo coisas na Índia que não se compreende o significado a primeira vista. É como nos disse uma amiga , você volta para o Brasil e ainda não acabou de digerir o que aconteceu aqui. Imagino que a compreensão só se dê com o tempo mesmo. O que tenho percebido é que por conta do espiritual ser de extrema relevância, tudo o mais que te afaste do foco em Deus torna-se desprezível no ambiente do ashram, e você acaba incorporando isso em ações simples do dia-a-dia. Tanto o pessoal que trabalha aqui quanto os estrangeiros vestem-se de forma muito simples. Nada daquelas roupinhas indianas que estamos acostumados a ver no Brasil, cheia de brilhinhos e bordados. Pés sempre descalços, não são permitidos o uso de sandálias em praticamente nenhum lugar. Não há talheres e a comida é servida numa folha de bananeira. E é assim que a Índia nos lembra a todo instante que só há algo de real importância: união com Deus. Perguntei para um sadu o significado de sua pintura com cinzas na testa, no que me explicou que o fazem para lembrar que tudo é impermanente, para manter a morte bem na frente dos próprios olhos. As cinzas representam que do pó viemos e nosso final último será esse também, não importa o que façamos para que isso não aconteça. Assim, uma vez que mergulhamos na consciência da efemeridade do nosso corpo físico, vive-se o momento presente muito melhor. E o que tenho sentido nesses últimos dias é que sabemos disso na teoria muito bem, mas como no Ocidente as pessoas não gostam de falar na morte, acaba tudo ficando de fato muito teórico. Ao contrário, vivendo num ashram estas questões sobre vida e morte não são faladas a todo instante, mas sentidas, conduzindo-nos a uma reflexão mais séria de como estamos conduzindo a vida. Será que a busca espiritual tem sido algo de real importância em nossas vidas, ou só teoria? Será que arrumamos tempo para isso, ou só desculpas? Cada um de nós pode responder a sua maneira, e se não estivermos satisfeitos com a resposta dada, podemos admitir a possibilidade de mudar o curso do rio, é o livre arbítrio com que nós, humanos, fomos presenteados por Deus. E assim, sermos conduzidos a um manancial de água cristalina, onde existe paz e felicidade.
Cabe a você escolher!
Namastê!

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