
Não há playcenter na Índia, mas tive a minha noite do terror. Nossa cabana é mais retirada e tem muitas árvores frutíferas ao redor. Logo, durante o dia, o som dos pássaros agrada muito, mas à noite há inconvenientes: morcegos, aranhas, sapos e pererecas, só espero não encontrar nada pior. Eu não me importo muito com eles, desde que estejam longe de mim. Bem, o pesadelo começou por volta das 23h00min horas , quando escutei um bicho arranhando minha janela e, de repente, percebo pelo barulho que ele conseguira entrar! Dei um grito, saí correndo para o quarto do Carlos, ele respondeu assustado de lá, nessas alturas eu já estava chorando de medo!! Fiquei escondida no quarto dele e o Carlos saiu meio zonzo, com sono , atrás do entruso para mim...descobriu, então, que se tratava de um morcego, que ficou voando em círculos desesperado, sem poder sair. Não havia como tirá-lo naquela hora, tínhamos que esperar amanhecer. Fiquei trancada no quarto, rezando pra ele não resolver entrar, sem se quer poder ir ao banheiro. Acho que foi a noite mais longa, pior que dormir em aeroporto!
Eu sempre fui uma criança muito medrosa. Medo de tudo, até de descer num escorregador. Tímida, insegura, gorda, tais características colocavam-me em desvantagem em relação a um grupo de crianças. Insatisfeita, encontrei uma forma de ser respeitada a partir da primeira série, quando comecei a me destacar como uma das melhores de classe. A partir da segunda série, as outras crianças já sabiam sobre minhas boas notas e eu já não era chamada por apelidos maldosos. Outros anos seguiram da mesma forma: da infância à adolescência e depois na fase adulta, para compensar a timidez e a insatisfação que tinha comigo mesma, destacava-me cada vez mais nos estudos. Com o tempo, essa estratégia deu-me uma certa segurança a nível profissional, pois sabia que se estudasse bastante poderia alcançar um lugar de destaque. Bem, a solução foi dada a princípio, contudo as marcas da insegurança de infância causaram feridas no meu subconsciente. Logo, a raiz do medo não se extinguiu dentro de mim, e quando menos espero ela se manifesta em comportamentos até mesmo infantis. Posturas invertidas até hoje mechem com minha psique. Por exemplo, mesmo ciente de que meu corpo está pronto para determinada postura, não raro meu psicológico não permite realizá-la, um medo sem aparente fundamento surge, a ponto de eu chorar fazendo parada de mão. O Carlos já presenciou isso várias vezes, incentivando-me sempre a continuar tentando, esclarecendo-me a importância de eliminar a fonte de todo o mal, com base na tolerância e aceitação, pois ferimentos internos criam uma couraça em nós que corrompem nossa vida e desvirtuam nossas melhores intenções de amadurecer como pessoa. Com isso, temos que a doença a nível físico os médicos dispõem de muitos meios de cura, mas a doença emocional, por ter raízes profundas, a medicina atual costuma tratar a base de antidepressivos, os quais, muitas vezes, escravizam as pessoas, não as curando em profundidade. Essa doença de raízes longas é chamada no yoga, grosso modo, de Sanskaras. Impressões fortes que se alojam na mente, sem tomarmos consciência disso. Às vezes, estas impressões somatizam-se por anos e, sem que percebamos, criam uma ferida enorme internamente. Quando esse machucado inicia-se, então, na infância, o remédio para curá-lo muitas vezes é mais moroso de se fazer efeito.
Gente, eu estou falando tudo isso para vocês terem paciência consigo mesmos quando perceberem algo em vocês que deve ser mudado, mas que a primeira vista parece imodificável. Uma atitude, uma forma de se comportar, um jeito infantil de reagir, uma mania horrível, um preconceito, enfim, sempre há algo em nós que não estamos satisfeitos. Por conta disso, desanimamos e nos conformamos com a mais simples conclusão: - Eu sou assim mesmo, não vou mudar !!
Pois eu garanto que você pode mudar, mas tem que respeitar o seu processo, o seu tempo. Tomar consciência e assumir o que está errado em você e o que deve ser modificado é um primeiro passo, o segundo é ter muita paciência. Pois, como exemplifiquei com a minha história de infância, há feridas internas em nós que surgiram há muito tempo, e não curam da noite para o dia. O yoga e a meditação podem ajudar, mas o mais importante é contar com a graça de Deus em nós. Confiar em Deus. Se for preciso, vede as janelas como eu, que ainda não tenho coragem de enfrentar os morcegos. O que vale é a confiança que você vai passar por cima disso, é só uma questão de desenvolver a arte de saber esperar!
Com carinho,