quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Ananda 4

Foto: Ir. Mary Louise, Erika e Carlos, no Ananda Ashram.

O calor na Índia já está ficando difícil de suportar. O pior horário é logo depois do almoço, por volta das 13 horas e permanece muito quente até o final da tarde, quando, não raro, um mal estar no corpo se instala e só um banho mesmo para minimizar a sensação ruim. Um ar quentíssimo e parado, sem vento. Mas já era de se esperar, pois no mês de março começa o verão aqui. Soubemos que muitos sofrem demais nesta época, falta água, em conseqüência alimento. Depois de alguns meses de extremo calor, entra um período de muitas chuvas, a ponto de ocasionar enchentes, e o povo continua sofrendo. A história da Índia é marcada por muito sofrimento, muita dor e muita luta.

Já estamos a caminho de um novo ashram, de Sri Ramana Maharshi, aos pés da montanha sagrada de Anurachala, em Tiruvannamalai, onde pessoas do mundo todo para lá se deslocam por conta da energia do lugar, que recebeu o nome de seu mestre, que viveu ali por anos, e é considerado uma pessoa santa. Todos que conversamos por aqui disseram que trata-se de um local especialíssimo, pois embora o Ramana não esteja mais vivo, sua presença ainda é muito forte por toda a parte. Aguardem as novidades!

Abraços.

Ananda 3

João, Cap. 9, 1 a 3.

Cura de um cego de nascença:- Ao passar, ele viu um homem, cego de nascença. Seus discípulos lhe perguntaram: Rabi, quem pecou, ele ou seus pais, para que nascesse cego? Jesus respondeu: “Nem ele nem seus pais pecaram, mas é para que nele sejam manifestadas as obras de Deus.”

Por que tanta injustiça no mundo? Por que tanto sofrimento de inocentes, não só de nós humanos, mas também dos animais, da natureza, do planeta de uma forma geral. Pois à medida que o planeta sofre diante dos maus tratos causados pela civilização, todo o mais sofre juntamente, o ecossistema amplamente é atingido. Já fiz esta pergunta interiormente por diversas vezes. Alguns justificam a dor como conseqüência kármica, como “uma certa dívida que temos que acertar por conta de ações erradas cometidas”. Mas o que dirá da natureza, dos animais? Vendo um animal, principalmente numa situação de sofrimento, busquei algumas justificativas, que nunca me convenceram totalmente. Hoje, passando os olhos nesta passagem bíblica acima descrita, ficou muito forte em mim a resposta de Jesus: é que a obra de Deus tem que ser manifestada, deve haver um veículo para que ela se manifeste. O milagre tem que continuar acontecendo, passe o tempo que passar. Não é porque um ou outro pecou e merece pagar por isso, Jesus não julgava, não condenava ninguém, caso contrário teria jogado a primeira pedra na samaritana. Só aconselhou-a: “Vai, e de agora em diante não peques mais”.

Se um sofre e o outro socorre, o milagre continua se manifestando, não importa quem o realizou, e sim qual a causa maior que movimentou a ação. Em sendo o amor e a compaixão, a vontade de Deus continua viva na humanidade, palpável, porque o Pai também sabe que somos fracos na fé, que precisamos de dados concretos, que somos como São Tomé, temos que ver para crer. Que precisamos do milagre. É assim que o pobre passa fome e do nada surge a comida, que um animal com sofrimento é socorrido, que alguém diminui a dor do planeta resolvendo economizar água, diminuir o lixo. Precisamos da presença viva do divino em nós, e é só a experiência que nos diviniza. É assim que Deus se manifestou e se manifesta até os dias de hoje. Que possamos nós também ser o veículo para que a vontade DELE continue se realizando, enquanto cumprimos nossa passagem pela terra.

Namastê!

Ananda 2


Não há playcenter na Índia, mas tive a minha noite do terror. Nossa cabana é mais retirada e tem muitas árvores frutíferas ao redor. Logo, durante o dia, o som dos pássaros agrada muito, mas à noite há inconvenientes: morcegos, aranhas, sapos e pererecas, só espero não encontrar nada pior. Eu não me importo muito com eles, desde que estejam longe de mim. Bem, o pesadelo começou por volta das 23h00min horas , quando escutei um bicho arranhando minha janela e, de repente, percebo pelo barulho que ele conseguira entrar! Dei um grito, saí correndo para o quarto do Carlos, ele respondeu assustado de lá, nessas alturas eu já estava chorando de medo!! Fiquei escondida no quarto dele e o Carlos saiu meio zonzo, com sono , atrás do entruso para mim...descobriu, então, que se tratava de um morcego, que ficou voando em círculos desesperado, sem poder sair. Não havia como tirá-lo naquela hora, tínhamos que esperar amanhecer. Fiquei trancada no quarto, rezando pra ele não resolver entrar, sem se quer poder ir ao banheiro. Acho que foi a noite mais longa, pior que dormir em aeroporto!
Eu sempre fui uma criança muito medrosa. Medo de tudo, até de descer num escorregador. Tímida, insegura, gorda, tais características colocavam-me em desvantagem em relação a um grupo de crianças. Insatisfeita, encontrei uma forma de ser respeitada a partir da primeira série, quando comecei a me destacar como uma das melhores de classe. A partir da segunda série, as outras crianças já sabiam sobre minhas boas notas e eu já não era chamada por apelidos maldosos. Outros anos seguiram da mesma forma: da infância à adolescência e depois na fase adulta, para compensar a timidez e a insatisfação que tinha comigo mesma, destacava-me cada vez mais nos estudos. Com o tempo, essa estratégia deu-me uma certa segurança a nível profissional, pois sabia que se estudasse bastante poderia alcançar um lugar de destaque. Bem, a solução foi dada a princípio, contudo as marcas da insegurança de infância causaram feridas no meu subconsciente. Logo, a raiz do medo não se extinguiu dentro de mim, e quando menos espero ela se manifesta em comportamentos até mesmo infantis. Posturas invertidas até hoje mechem com minha psique. Por exemplo, mesmo ciente de que meu corpo está pronto para determinada postura, não raro meu psicológico não permite realizá-la, um medo sem aparente fundamento surge, a ponto de eu chorar fazendo parada de mão. O Carlos já presenciou isso várias vezes, incentivando-me sempre a continuar tentando, esclarecendo-me a importância de eliminar a fonte de todo o mal, com base na tolerância e aceitação, pois ferimentos internos criam uma couraça em nós que corrompem nossa vida e desvirtuam nossas melhores intenções de amadurecer como pessoa. Com isso, temos que a doença a nível físico os médicos dispõem de muitos meios de cura, mas a doença emocional, por ter raízes profundas, a medicina atual costuma tratar a base de antidepressivos, os quais, muitas vezes, escravizam as pessoas, não as curando em profundidade. Essa doença de raízes longas é chamada no yoga, grosso modo, de Sanskaras. Impressões fortes que se alojam na mente, sem tomarmos consciência disso. Às vezes, estas impressões somatizam-se por anos e, sem que percebamos, criam uma ferida enorme internamente. Quando esse machucado inicia-se, então, na infância, o remédio para curá-lo muitas vezes é mais moroso de se fazer efeito.
Gente, eu estou falando tudo isso para vocês terem paciência consigo mesmos quando perceberem algo em vocês que deve ser mudado, mas que a primeira vista parece imodificável. Uma atitude, uma forma de se comportar, um jeito infantil de reagir, uma mania horrível, um preconceito, enfim, sempre há algo em nós que não estamos satisfeitos. Por conta disso, desanimamos e nos conformamos com a mais simples conclusão: - Eu sou assim mesmo, não vou mudar !!
Pois eu garanto que você pode mudar, mas tem que respeitar o seu processo, o seu tempo. Tomar consciência e assumir o que está errado em você e o que deve ser modificado é um primeiro passo, o segundo é ter muita paciência. Pois, como exemplifiquei com a minha história de infância, há feridas internas em nós que surgiram há muito tempo, e não curam da noite para o dia. O yoga e a meditação podem ajudar, mas o mais importante é contar com a graça de Deus em nós. Confiar em Deus. Se for preciso, vede as janelas como eu, que ainda não tenho coragem de enfrentar os morcegos. O que vale é a confiança que você vai passar por cima disso, é só uma questão de desenvolver a arte de saber esperar!
Com carinho,

Ananda 1


Estamos num novo ashram: Ananda Ashram. Fica em frente ao que estávamos, quem administra o lugar são duas freiras, irmãs Maria Luiza e irmã Marcila. Muito amorosas e atenciosas, foram elas que cuidaram de mim quando fiquei doente, em especial a irmã Maria Luiza. Ela estava tratando de mim com duas refeições, o café-da-manhã e o jantar. Agora que estamos hospedados aqui, temos direito também ao almoço, que foi a comida mais gostosa que experimentei por onde passei na Índia, sem pimenta absolutamente. Ah, estou no céu.... Fora isso, o clima aqui é muito melhor, as irmãs tem uma energia especial e a espalham no ambiente, muito alegres e sorridentes, fazem bem só com o olhar. Acomodaram-nos numa cabaninha retirada da entrada, bem silenciosa, quartos e banheiro limpo, até roupas de cama nos ofereceram, artigo de luxo na Índia. Conhecemos há pouco o templo delas, pequeno, mas aconchegante, perfeito para meditação. E em meio à simplicidade tão diferente de nosso cotidiano no Brasil, tem-se a certeza de como complicamos demais nossas vidas. Fico olhando para minha mala e imaginando a cara de indignação se uma indiana a visse: creme para os cabelos, para os pés, para as mãos, espelho, pinça, esmalte, filtro solar, papel higiênico, absorvente íntimo.... lembro-me a correria que foi lembrar de providenciar tudo isso, e ainda não trouxe mais um monte de coisas que queria só porque nossa bagagem não podia passar 20 quilos cada um! Assim, é fato como a vida moderna tem seus truques, pois escondido em meio a um conforto que a duras penas conquistamos, vem na bagagem todo um stress de brinde. A maioria das mulheres indianas não tem espelho, logo, olha o tempo que economizam! Umas duas ou três mudas de roupas, sapatos, no máximo, um chinelinho, cabelos sempre presos. Os homens usam um pano amarrado na cintura (aqueles que trabalham no campo) e ficam sem camisa, os monges um pano mais comprido e uma espécie de bata. É lógico que nas cidades não é assim, estou falando do ambiente rural e ashram, onde estamos situados. Nesse contexto, em meio a tanta simplicidade que conduz a uma paz tranqüilizante, veio-me a certeza que buscamos felicidade de fato onde ela não está. Meu Deus, que facilidade temos de correr atrás do ilusório. Por exemplo, todo mundo sabe que o café coado no coador de pano é mais saboroso, mas insistimos em comprar a cafeteira de última geração. Comida em fogão de lenha, então, nem se fala, não tem mais gostosa! A vida corrida fez-nos desvalorizar o simples, em verdade achamos que o simples toma tempo demais e perdemos a sensibilidade de, se quer, podermos admirá-lo. Depois gastamos esse mesmo tempo nos consultórios médicos e nosso dinheiro em remédios. E é assim que vamos cada vez mais nos envolvendo com a correria, o stress, o trabalho nos consumindo, e quando chegamos a conclusão de que o dinheiro ganho não trouxe felicidade, vem a depressão, o desânimo. E o pior é que sabemos de tudo isso, e não fazemos nada para mudar nosso ritmo de vida.

Assim, se tiver oportunidade, não deixe de fazer aquele passeio mais simples, como acampar num lugar isolado, passar um dia na roça, procure a natureza, tenha paciência de ver o espetáculo de um nascer ou pôr-do-sol. De lucro, você fará as pazes consigo mesmo!

Saudades de todos!


Em Shantivanam 4

Vêm muitas crianças das vilas próximas no ashram pedindo ajuda para suas famílias, ou algo que queiram, de uma forma particular. Essa manhã havia duas meninas aqui todas arrumadinhas, com seus sáris, terceiro olho, cabelos trançados com flores, que aqui vieram pedindo um auxílio, pois queriam participar de um piquenique. Soubemos posteriormente que o ashram desenvolve inúmeros projetos sociais de ajuda às famílias carentes, dando-lhes alimento, educação, trabalho, constroem até casas para os mais necessitados. Mas como a carência é gritante, imagino ser praticamente impossível socorrer a todos os que precisem.

As mulheres indianas simplificam por demais suas vidas, pelo menos as que moram aqui no vilarejo, pois as de cidades maiores, como em Bumbai, onde estávamos, elas querem mais é ficar parecidas com as ocidentais, aposentando seus antigos sáris e aderindo às calças jeans. Assim, no ashram, já que se trata de um local mais retirado, elas vestem-se com seus sáris, cabelo trançado ou um coque, pés no chão. Gastos com manicure, preocupações em alisar os cabelos, essas coisas que tomam tanto nosso tempo no Ocidente não existem. No banheiro delas, o assento é diretamente no chão, como se fosse um vaso grudado direto no chão. Assim, sentam-se de cócoras, numa postura que nós, ocidentais, normalmente não conseguimos ficar, ou ficamos por muito pouco tempo, e assim resolvem seus problemas básicos. Imaginem nós, que mal conseguimos permanecer agachados dessa forma, num daqueles dias em que o intestino está lento, sem pressa. Você não sabe se agüenta a dor de barriga, ou a dor para suportar ficar na postura! Pois é. Mas, cientes das dificuldades ocidentais, em cada banheiro há pelo menos um vaso, dos que estamos acostumados a usar aí no Brasil. Percebi que elas não limpavam o banheiro que eu estava usando, só o delas. Perguntei, então, ao responsável pelo ashram se podia me arrumar algum produto para limpar e desinfetar o banheiro. Ele respondeu-me que não precisava, que eu deveria me ocupar com outras atividades, como limpar o templo, ajudar na cozinha, no jardim, etc. É tudo, em verdade, uma questão de ponto de vista, pois para eles meu banheiro não estava sujo. Cheguei à conclusão, também, que as indianas, assim como eu tenho um pouco de nojo do banheiro delas, elas tem nojo do nosso, pois devem imaginar, nossa, todo mundo senta ali, no mesmo lugar, depois se limpam com um papelzinho nojento!!!Pois elas costumam lavar-se depois de fazerem suas necessidades, pelo menos é o que eu imagino, pois há uma torneira e um baldinho próximo da fossa delas. Enfim, tudo depende do referencial, da forma como vemos o mundo. Para fim de conversa, descobri onde guardavam um desinfetante e dei um banho no meu banheiro. Agora, menos mal cheiroso, estou conseguindo usá-lo melhor. Essas questões são também de difícil adaptação por aqui. Eu só sei que nunca vou mais reclamar do banheiro do mercadão de Jacareí, ou das rodoviárias, limpinhos, limpinhos para os padrões indianos!

Abraços, com saudades!

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Shantivanam 3

Eu não andei muito bem esses últimos dias. Felizmente encontrei uma mãe aqui na Índia, uma mulher com os seus 70 anos, ou mais, muito respeitada, pessoas do mundo todo hospedam-se com ela em busca de paz, tranqüilidade e de uma saúde melhor. Irmã Maria Luíza, como assim é chamada, adotou-me. No mesmo dia em que a procurei, pediu que eu retornasse à noite para começar um “tratamento”, como ela assim chama, e esperou-me com uns comprimidos e uma sopinha deliciosa, que disse ter feito exclusivamente para mim. Desde ontem, estar na presença dela, além de comer suas maravilhosas guloseimas tem sido um dos melhores momentos do meu dia. Eu estava me sentindo muito mal, dores de cabeça, intestino sem funcionar, queimação no estômago, um desânimo, deprimida, foi quando soube que a irmã costuma curar os turistas que ficam doentes aqui na Índia. Explicou-me que por ser muito comum pessoas não se adaptarem com a comida apimentada, ela já espera que pessoas a procurem nesse período de alta temporada na Índia. Ela cuida de todos como seus filhos. Foi o olhar mais amoroso que encontrei na Índia.

Observei com que amor ela dava pela manhã um tipo de xarope para algumas crianças, que fizeram uma filinha para recebê-lo. Ela se parece com aquelas curandeiras que nossas avós nos levavam quando não estávamos muito bem. Passou uma dieta especial para curar meu intestino preguiçoso e proibiu-me de comer outras coisas. Mas a comida dela é maravilhosa e não é nenhum sacrifício segui-la. Iogurte que ela mesma faz, uma mistura de arroz integral doce com cereais, suco de laranja e uma espécie de doce de banana. Ah, também tem café e um pãozinho que se parece com um hambúrguer, que é feito com trigo integral. Bem, isso é só o “breakfast”, ah, e o melhor, sem pimenta nenhuma!

Irmã Maria Luíza é responsável por um ashram vizinho de onde estamos hospedados. Um lugar um pouco menor e mais simples, mais informal, sem uma programação própria e sem um certo rigor, onde os hóspedes ficam mais livres, mas caso queiram, podem participar das atividades do Shantivanam. Percebi que as pessoas costumam procurá-la em busca de mais sossego, ou quando estão doentes. Desconfio que também a procurem ao descobrirem sua maravilhosa comida. Eu, particularmente, fiquei encantada, mas o que mais me tocou foram aqueles olhos doces, aquele sorriso acolhedor. Com seu olhar, ela nos abraça, tal qual uma mãe acolhe o filhinho nos braços. É, com toda certeza, uma pessoa muito especial, daquelas poucas cuja luz interior não cabe dentro, é perceptível aos nossos olhos!
Namastê!

No Shantivanam 2

Nossa rotina no ashram começa às 5 horas e termina às 21 horas, quando é feita a última oração e todos se recolhem. O espírito de silêncio está por toda parte. A recomendação é que não se converse durante as refeições, nem no templo e obviamente nem na sala de meditação. Tudo é muito simples e bonito. Muitas árvores, o som dos pássaros pode ser ouvido constantemente. Aqui há vaquinhas felizes, ontem mesmo não acreditei no que vi, uma vaca brincando, corria de um lado para o outro, perturbava as amigas e saia correndo, sinceramente eu desconhecia a diversão no mundo delas. Acho que toda vaquinha adoraria morar na Índia, até porque a maioria da população é vegetariana e elas estão a salvo dos churrasquinhos.

Todos os dias há missa. São cinco padres que se revezam na celebração, onde um ritual hindu se mistura ao ritual cristão por nós conhecido. Todos no chão, o próprio padre também senta-se de pernas cruzadas e num pequeno altar, faz toda ritualística, as oferendas e a consagração. Flores do próprio jardim do ashram são oferecidas a Cristo. A simplicidade provando que para expressar-se o amor por Deus devemos também ser simples. Ninguém se arruma para entrar no templo, devendo apenas se observar o respeito quanto a vestimenta. Homens e mulheres não devem estar com ombros de fora, nem se usa bermudas ou shorts. Para nós, turistas, há uma certa dificuldade no começo pois o calor está muito forte, uns 35 a 40 graus, imagino, e ficar de calça comprida o dia todo é de se estranhar. As mulheres que trabalham aqui vestem-se com seus sáris. Homens e mulheres que vêm de fora encomendam uma roupa que chamam de pijama, uma calça larga e uma bata, com golinha de padre. No dia seguinte a costureira já entrega pronto por um preço bem barato. Eu acabei por não fazer por achar a roupa quente demais.

A comida é bem diversificada, cada dia um menu diferente, com muita pimenta, é claro. O bom é que servem aqui café com leite e eles fazem também um pãozinho bem gostoso. O cardápio é lacto-vegetariano e três refeições ao dia são servidas.

Um dos padres ensina yoga e ontem fizemos uma aula sua. Muito atencioso, ensina a hatha yoga tradicional. Mas não há um horário específico de aulas, elas têm que ser agendadas antes. Contudo, espaço para prática não falta e o ashram por si só é inspirador, motivando-nos para a prática.

Todos os dias pela manhã há o período de seva, onde os hóspedes que desejam dividem-se em tarefas domésticas, como ajudar na cozinha, varrer os ambientes comuns, etc. Cada um também cuida da limpeza do próprio quarto, da louça que sujou durante as refeições e há uma boa torneira para se lavar roupas. A moda antiga, é claro, nada de máquina de lavar, centrífuga, a grande máquina são braços fortes.

Há estrangeiros do mundo todo. É curioso como pessoas vêm de toda parte, percorrem distâncias tão grandes para encontrar conforto no muito rudimentar. Ao meu ver, isso se dá porque na correria diária esquecemos com facilidade do essencial na nossa vida, entrega a Deus, que na yoga chamamos Ishivara pranidana. Há muitos que vêm pelo menos uma vez por ano para cá, parece que para resgatar a fé, recarregar a bateria espiritual. E aqui pode faltar o conforto a que estamos acostumados, mas a presença de Deus parece estar por toda parte. Na verdade, o ashram tem esse papel de recordar da presença do divino em cada indivíduo. Os agradecimentos constantes, pela manhã, tarde e noite, os cantos dos mantras, os namastês comumente dados pelos hindus, os sorrisos a cada olhar que se encontra, ainda que no silêncio, são grande prova disso.
Até a próxima!

No Shantivanam 1


Chegamos finalmente ao Saccidananda Ashram ou Shantivanam. Já no aeroporto, percebemos a dificuldade que enfrentaríamos no Sul da Índia: fala-se mais o idioma local, poucos sabem o inglês, diferente de Bumbai, onde nas escolas as aulas são todas em inglês, as missas também são rezadas neste idioma, enfim, até o vendedor de bananas da esquina se vira e compreende o que falamos. Mas onde estamos, em Thannirpalli, quase ninguém compreende. Tínhamos que pegar um táxi para chegar ao Ashram e as coisas começaram a ficar difíceis: o serviço de táxi do aeroporto não estava funcionando, o mais confiável, porque se paga ali mesmo, não diretamente ao motorista. Aqui na Índia, de uma maneira geral, os taxistas costumam cobrar o que querem dependendo da cara do turista. O pessoal do Kripa já havia nos advertido quanto a isso. Bem, sem outra opção, já tentávamos negociar com bastante dificuldade com um motorista de táxi, quando o Carlos percebeu uma indiana que parecia procurar alguém no aeroporto. O pessoal do Ashram disse-nos que talvez alguém fosse nos buscar, logo, achamos ser ela a pessoa. Abordando-a, respondeu-nos que estava ali esperando o marido, que viria no mesmo vôo que o nosso, mas houve um imprevisto e ele não desembarcou. O Carlos pediu que ela fizesse a gentileza de comunicar-se com os indianos para nós, no que ela explicou que, na verdade, morava nos Estados Unidos e não sabia falar o Tamil. Por conta do nosso desânimo, imagino que ela sentiu compaixão por nós e resolveu ajudar. Disse que estava indo para uma cidade que ficava um pouco depois do Shantivanam e ofereceu nos levar. Foi assim, então, que chegamos.

Alguém que nunca nos viu, resolveu confiar, de forma gratuita. Para nós, ficou o exemplo e um motivo para reflexão: quantas vezes somos extremamente egoístas e perdemos uma excelente oportunidade de ajudar alguém porque vai dar trabalho? Eu confesso que infelizmente em muitas situações agi assim, preferindo como resposta um “não sei”, ou “não posso”, quando nem se quer dei-me ao trabalho de analisar se de fato não podia ajudar. Na maioria dos casos, a verdade é que não queremos, momento em que talvez estejamos perdendo uma grande oportunidade de crescimento interior. A cada gesto amoroso, qualquer gentileza feita traz intrinsecamente o adubo para que nossa semente da sabedoria possa germinar. Todos já a tem dentro, e aqui já não falo da sabedoria adquirida através de diplomas conquistados, mas sim da sabedoria que vem da Graça Divina.

Que possamos aflorar o divino em nós a partir de melhores escolhas. Há sempre uma porta aberta para quem anda no caminho do bem. Vale a pena conferir!
Segue a foto da indiana Piyali, o anjo que apareceu no nosso caminho!



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Gostaria de agradecer a todos que estão nos acompanhando no blog que as mensagens que vocês nos enviam, antes de serem publicadas são lidas por nós, portanto temos lido todos os comentários enviados por vocês. Agradecemos o carinho e a amizade!
Abraços!

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Bombai 2

Há duas coisas bastante difíceis de acostumar-se aqui na Índia: a primeira delas é o barulho, a poluição sonora é gritante; a segunda é a pimenta. Eu sempre fui admiradora de comida indiana, mas o que se come aqui nada tem a ver com aquele restaurante indiano que você já experimentou um dia, ou com a comida dos Hare Krishna. É muita pimenta, no café da manhã, inclusive. E olha que nos disseram que aqui no Kripa a comida é leve, sem pimenta, porque os internos estão em processo de desintoxicação. Mas, para mim, em particular, não tem sido fácil. Meu estômago anda enjoado e as saudades do meu café com leite e pão com manteiga aumenta a cada dia. Isso é uma coisa que vou procurar com urgência, assim que voltar ao Brasil.
Outra dificuldade: como já estávamos avisados, há muita sujeira por toda a parte. O conceito de assiduidade não existe por aqui. Nos banheiros não são comuns chuveiros, nem papel higiênico. Eles usam um balde e uma canequinha. Talvez até haja chuveiros nos hotéis mais caros, realmente não sei . O fato é que no nosso quarto já estavam lá, o balde e a canequinha nos esperando. Como eu levei papel do Brasil, essa parte eu garanti. A água, pelo menos do meu banheiro, sai de uma torneira, que não se pode abrir muito, caso contrário não esquenta nada. Bem, a partir dessa torneirinha você tem que se virar. Pra mim, é difícil lavar meu cabelo comprido. Fora que estamos pegando um pouco de frio, a temperatura está em torno de 20 graus de dia. Assim, o banho fica ainda mais complicado. Que saudades do meu chuveiro quente do Brasil!
Continuamos com nossas práticas de yoga e meditação. Dia 13 de fevereiro, viajaremos para um ashram, no Sul da Índia, onde experimentaremos, de fato, como é a vida de um buscador sério. Escreverei sobre as novidades!
Beijos a todos

Bombai 1

Chegamos numa quinta-feira à noite às 23 horas e 30 minutos aproximadamente. Acomodaram-nos num quarto simples com banheiro, perto da Fundação Kripa, onde um padre Católico muito conceituado aqui na Índia desenvolve um trabalho de desintoxicação de dependentes químicos e portadores de HIV. No dia seguinte, fomos logo cedo até a Fundação e suas dependências para compreender melhor a forma como o yoga e a meditação ali são aplicadas. O próprio padre é professor Senior de Iyengar Yoga e discípulo direto do próprio B.K.S. Iyengar. Para aqueles que não estão muito familiarizados, este é um dos poucos mestres vivos na Índia. Temos fotos dele aí no Yogashakti fazendo algumas posturas, nos quadros dentro da sala de aula. Pois bem, o padre, de nome Joe Pereira, apresentou-nos seu projeto e convidou-nos para uma aula sua no final da tarde. Fomos então, filmamos para mostrar a vocês depois, e gostamos muito. O método é forte, mas como ele faz um trabalho terapêutico, é uma aula que qualquer um pode fazer. Exemplo disso é o que observamos na aula dada aos dependentes químicos: só uns quatro não participaram, que deviam estar mais debilitados. É lógico que muitos tem dificuldades, principalmente respiratórias, mas a aula deles é bastante dinâmica, cheia de energia, visando colocá-los para cima. Ao mesmo tempo, observamos uma espiritualidade forte, cantam mantras no início da aula e ao final meditam e lêem textos sagrados. Aliás, explicou-nos o padre, o grande problema no Ocidente é que a yoga é apresentada como mais uma forma de ginástica, o que leva as pessoas até a se machucarem. Como eu e o Carlos já tínhamos consciência dessa realidade, uma de nossas propostas ao vir para cá era acessar esse conteúdo mais espiritual que deve envolver as aulas. Longe de querermos doutrinar os alunos, mas o fato é que se a prática de yoga não tiver como alicerce uma mudança interior, que é fruto da Graça Divina em nós, estaríamos ensinando para nossos alunos uma inverdade. Assim, o resgate da espiritualidade faz-se urgente, num mundo hoje onde a mídia vive nos instigando a abraçar valores fúteis e de pouca utilidade a nível de crescimento espiritual.
Estamos muito satisfeitos com o yoga que nos apresentaram aqui. Nada que difere, a nível de posturas, com a prática que vocês fazem , aliás o programa de aula deles contém ásanas bastante simples, o que torna a prática mais intensa é o tempo de permanência, que é maior. Um diferenciador também percebe-se no doente que procura restabelecer-se, uma nítida convicção que emerge dos olhos e da face de cada um, denotando o quanto crêem que aquela prática realmente tem o poder de modificá-los, de torná-los uma pessoa melhor, livre de seus vícios.
Quanto a nós, fica a lição: acreditarmos firmemente que o yoga e a meditação são capazes de gerar mudanças significativas na nossa vida. Que possamos ir além do nível físico, das mudanças visíveis a olho nu. Mas que acreditemos na mudança que transcende, que brota do coração. Esse é o nosso grande desejo!
Namastê!

India: Padre Joe Pereira, Erika, Carlos e Chistopher


Italia - Basilica de Sao Pedro no Vaticano e mini-carro italiano




sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

A caminho da Índia

Fica sempre no ar a pergunta: o que vamos encontrar pelo caminho....em direção ao coração do yoga, onde o sagrado se mistura com o dia-a-dia dos indianos, é sem dúvida uma descoberta. É como se nada soubesse, em verdade, estou com esta consciência mesmo, aberta para o novo e desconhecido. Sinto que tudo que sei hoje é meio teórico, por isso a experiência é tão significativa. Por exemplo, praticar satya, ser verdadeiro, na nossa vida, é fácil, ou requer esforço? Se formos realmente honestos, reconheceremos a dificuldade. Pois bem, esta é uma das propostas pilares do yoga, que engloba desde dar um troco certo para moça do supermercado até não desperdiçar comida. Em Roma observamos que se pode entrar num ônibus e usá-lo sem pagar, pois não há cobradores, mas ninguém faz isso (com exceção de turistas desinformados como nós). E você pode dizer, ah, mas é porque não tem pobre na Itália! Bem, não é bem isso que pudemos observar. Parece que há uma consciência inerente. Pois é assim que satya se manifesta. Começa com um exemplo simples, baseado num conselho simples de nossos pais, avós e dos justos que os precederam. E uma vez que se opta pelo caminho da verdade, difícil mudar o curso. É mais fácil não ser verdadeiro a meio verdadeiro. Assim, quem inicia na prática do yoga percebe com clareza a dificuldade em não seguir este preceito maior. Incomoda se não assumimos esse compromisso.
E é isso mesmo, minha gente. Nenhum progresso espiritual é possível se não houver uma mudança interior que repercuta numa mudança de comportamento. Por isso que gosto de falar que não se deve avaliar seu progresso no yoga por estar alcançando hoje nos dedos dos pés, ou se consegue ficar meia hora de ponta cabeça. Isso é menor. Mas se seus olhos forem capazes de enxergar a injustiça, a indiferença, a falta de amor no mundo, isso lhe dará força para agir diferente, para ser diferente. Atitudes simples, que demonstram o progresso na sua prática.
Vale a pena tentar!
Namastê!

Em Roma 5

Estamos de malas prontas para a Índia. Visitamos a Catedral de São Pedro, no Vaticano, porque passar por aqui e não fazê-lo, ainda mais porque estamos há meia hora de lá, seria um crime. Imaginem uma Aparecida dez vezes maior, é isso. Arquitetura que impressiona, pinturas que expressam uma época. Mas nesses lugares, o que os faz mais interessantes, é, sem dúvida, como disse certa vez o professor Marcos Schutz, o pulso devocional. Pessoas que não medem esforços para estarem em determinado lugar por conta da fé que possuem. E isso é lindo e admirável. Em meio a milhares de curiosos, sempre tem aqueles envoltos pela fé que os conduz. Por isso esses lugares sagrados são tão especiais. Independente da relação que temos com a igreja, não há como se negar e respeitar, porque não raro há muita história de fé envolvida.
Aí vão umas fotos,
Abraços
Ah, por favor, dêem feliz aniversário por nós à Amanda, sei que é esse mês, não me lembro o dia!
Para Danila: passamos por uma loja especial para DJs, lembramos logo de vc!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Em Roma 4


Namastê!

Felizmente faz sol aqui em Roma. Andou chovendo bastante, muito frio e hoje o céu de Roma sorriu, muito azul, lembrou-me os dias quentes aí do Brasil. Minha mãe diz ser adoradora do sol, acho que herdei isso dela, sinto-me animada na presença do seu calor. Com tempo bom, pretendemos aproveitar o dia de hoje e conhecer alguns pontos turísticos. Estamos próximos do metrô, e como em SP, aqui em Roma, estando-se no metrô chega-se a qualquer lugar. Nas ruas, à noite, as pessoas caminham tranqüilas, sem a preocupação de serem assaltadas. Mulheres e homens bastante elegantes, casacos e botas são muito usados. Os italianos tem um tom alto na voz, vez ou outra eu e o Carlos apostamos se estão discutindo, ou não, mas quase sempre chegamos a conclusão que se trata de uma simples conversa.

Difícil encontrar um supermercado por aqui. Logicamente que há, mas não em toda esquina, como no Brasil. Assim, depois de não agüentarmos mais comer tanta macarronada e pizza, felizmente encontramos o tão procurado supermercado e parecíamos duas crianças no parque de diversões: felizes ao encontrar alguma fruta, verduras, legumes, iogurte, cereias, arroz, ah, eu estava louca por encontrá-lo. Há uma música brasileira do Zeca Baleiro que diz: “lugar de ser feliz não é supermercado”!! Bem, aqui em Roma tenho que discordar do Zeca. Assim, estou ansiosa por uma comidinha simples, um arroz, uma batatinha, alguns legumes e uma salada, que banquete! Curioso com valorizamos o simples `a medida que nos afastamos dele.

Para terminar, gostaria de agradecer imensamente os amigos que tanto nos motivaram e incentivaram para que tudo corresse bem em nossa viajem. Em particular, queria agradecer a compreensão de meus alunos, pois que estive um pouco ausente neste mês de janeiro, correndo com os preparativos. Todos muito compreensivos, tive que alterar horário de aulas, substituí-las por outro professor e não recebi nenhuma crítica. Vocês todos têm um lugar muito especial no meu coração. Quero mandar um beijo grande para Roseni, ela fez aniversário dia 02 de fevereiro, Rose, queria poder abraça-la pessoalmente, parabéns!!! Adorei o presente que deixou para mim, grata! Estamos também muito agradecidos pelo empenho da Nilcéia para que tudo corra bem enquanto estamos longe, ela é uma pessoa maravilhosa que tem muito a passar para vocês.

Finalmente, espero que não desanimem em suas práticas de yoga, lembrem-se que yoga é uma prática espiritual, e com tal, deve ser levada a sério e com habitualidade. Procurem livrar-se de julgamentos, simplesmente pratiquem, com paciência, amor e aceitação. Estou torcendo por todos.

Com carinho,

Até a próxima!


Yoga com Diane Long

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Entrevista com nossa amiga Kerri

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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Em Roma 3

A vantagem de se estar no caminho do yoga é que as pessoas que se conhece do meio são todas muito especiais. Um rapaz hospedou-nos amorosamente, cozinha quase sempre para nós, cedeu-nos o melhor quarto e esforça-se para falar o português, que aprendeu um pouco com amigos brasileiros. Minha professora italiana percebeu meu precário inglês e nas aulas mistura o inglês com o italiano, tentando fazer com que eu compreenda. Dois outros alunos, que estão aqui para estudar com Diane vieram dos Estados Unidos e percebendo nossa, ou melhor, minha dificuldade em entendê-los, diminuíram a velocidade no falar e usam um vocabulário mais simples. Muito gentis, não medem esforços para nos agradar. Esses dias fizeram um jantar vegetariano delicioso para nós. Resumindo, só há gente do bem nesta trilha. Por conta de propósitos semelhantes, ajudam-se mutuamente, onde interesses pessoais passam a ser pano de fundo.
Vem gente do mundo todo estudar yoga com nossa professora italiana. Como falei há pouco, conhecemos uma professora americana muito especial, Kerri, que está aqui com o marido, Dan, para estudos. A seguir, vai uma pequena intrevista sobre o que ela pensa sobre yoga.
Saudades de todos

Em Roma 2

Hoje tivemos, pela segunda vez, aula com nossa professora italiana, Diane Long. Suas aulas são particulares e desenvolveu uma forma diferente de ensinar. Em todas as posturas ela parece estar confortável, à vontade, é como se estivesse espreguiçando o tempo todo. Bonito de ver sua desenvoltura quando entra num ásana, mas bastante difícil acompanhar suas orientações, entender exatamente o que ela deseja que você faça. Muitas vezes até se entende, porém o corpo não obedece. Segundo ela, o ásana deve brotar de dentro para fora, através do corpo, não com o corpo. Deve fluir com naturalidade, como a respiração, a arte, a música, a dança. Tudo muito espontâneo, com graça, leveza, sem tensão. A idéia é muito interessante, porque a proposta do yoga é exatamente esta, gerar gradualmente mudanças internas no indivíduo que repercutem em seu exterior, através de uma nova relação que o praticante vai estabelecendo com pessoas que ele convive. Como a ferramente que temos no yoga para acalmar a mente é o corpo, faz sentido pensar nas posturas brotando, emergindo de dentro para fora. Tarefa difícil, mas que se pode alcançar, Diane é exemplo disso. Ainda mando pra voces alguns momentos de nossas aulas.
Saudades,
Érika e Carlos

Em Roma

Hoje demos uma saidinha por aqui, conhecer um “pouquito” as ruas de Roma. Tínhamos planos de conhecer o Vaticano, mas hoje choveu bastante por aqui e dificultou nosso passeio. Gente, está muito frio nesse lugar, que saudades do calorzinho do Brasil....Só tomando um vinho mesmo para aquecer, o que as pessoas fazem o tempo todo. Em todos os bares você tem opções de bons vinhos. Ah, vinho docinho, nem pensar. Aliás, ouvi uma história que os brasileiros que estragaram o vinho, adoçando-o. Bem, se é verdade não sei, eu gosto de vinho seco mesmo, por isso para mim está tudo ok.
Aconteceu um fato engraçado: estávamos indo para o centro de Roma, que fica há uns 20 minutos de onde estamos hospedados e, como vinha um ônibus, resolvemos entrar. Mas aqui não há cobrador, as pessoas compram o ticket, ao entrarem colocam-no numa maquininha que tem dentro do ônibus e pronto. Como não tínhamos o ticket, nem como comprá-lo dentro do ônibus, ficamos apreensivos para que ele parasse logo e pudéssemos descer. Assim, no primeiro ponto pulamos e os italianos devem ter percebido que éramos estrangeiros. Logo, já caminhando na rua, ouvimos uma sirene de polícia, mas, ufa, não estavam atrás de nós! O fato é que é bastante difícil comunicar-se com os italianos porque eles não falam inglês, só alguns poucos, o que dificulta perguntar-se as coisas no comércio de uma forma geral. Um bom conselho é conhecer um pouquito de italiano antes de vir cá. É isso.
Beijos a todos,
Érika

1º dia de viagem: 31/01/08

É uma noite fria aqui Londres. Esperamos nosso vôo para Itália, a passagem é só para o dia seguinte, o que implica em passarmos esta noite no aeroporto. `A espera, uma criança faz o que qualquer adulto deveria fazê-lo, já que é chato e cansativo esperar: extrai o melhor do momento presente e anula o que não tem utilidade: passa a correr e brincar. Cria um mundo só seu, onde os carrinhos de conduzir malas tornam-se seus carros possantes. Inventa outras brincadeiras, quase nenhuma delas compreendidas pela mãe, que passa a chamá-lo para perto, querendo mesmo é que se cale. Nesse contexto, é perceptível a facilidade que a criança tem de vivenciar de forma plena o momento presente, dando-lhe um significado, com uma grande diferença: não absorve e não vive o ruim daquele instante, muito pelo contrário, só o que é bom, desenvolvendo sua capacidade de ignorar o que não lhe serve. E porque não pode modificar os fatos, dá-lhes significado, extrai do fato inevitável e imodificável, uma utilidade. Pena que nós, perdemos esse jeito simples de transformar situações e extrair proveito delas. Gosto muito de uma frase inteligente que aprendi de um religioso: “se você não pode modificar um fato, deixe que este fato te modifique.”
Assim, quando o inevitável ocorrer e a princípio parecer perturbador e sem utilidade alguma, a grande arte e proposta cristã é dar-lhe um significado. Cristo era mestre nisso e ensinou-nos com diversos exemplos. Em muitas passagens bíblicas ele viveu a situação de forma a dar-lhe a importância devida. Sua experiência mais marcante, a meu ver, ocorreu em Getsêmani, num momento de grande agonia. Sabendo que seria capturado pelos guardas romanos e pressentindo todo sofrimento que teria pela frente, revestiu-se de sua humanidade e orou a Deus, rogando-lhe que, se fosse possível, minimizasse seu sofrimento. Sentiu medo, tristeza, solidão. Sentimentos tão humanos e que cansamos de experimentar.
A beleza dessa passagem bíblica deixa muito claro como tudo é transformável e que até a experiência mais dolorosa pode conter significado. Cristo, absorvendo-se do humano, aproveita os instantes de intensa agonia e passa a admitir seus medos, inseguranças e tristezas. Neste exato momento, santifica-se ainda mais. O ápice de sua humanidade se revela, e em conseqüência, diviniza-se ainda mais. A missigenação do humano e divino ocorrem, deixando um exemplo de vida para a humanidade. Suas palavras foram: “Minha alma está triste até a morte. Permanecei aqui e vigiai comigo”. E indo um pouco adiante, prostou-se com o rosto em terra e orou: “Meu pai, se é possível, que passe de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas como tu queres”.
Logo, aflorarmos o divino que já está em nós está intimamente relacionado com nossa capacidade de vivenciarmos plenamente nossas fraquezas, inerentes a nossa condição humana. Se nos momentos difíceis pudermos extrair algo de positivo, deixaremos que a dor nos ensine e fortaleça. Humano e divino são indissociáveis, muito pelo contrário, completam-se.
Olho de novo para a criança e percebo um sorriso que lhe vem de dentro e aponta em seu rosto. Percebeu que eu entrara em seu parque de diversões, não estava mais naquele aeroporto frio e chato sozinha. Sorri-lhe também, em resposta àquele olhar curioso e ingênuo, como que a dizer: - Vamos brincar?