quinta-feira, 27 de março de 2008

Em Londres 2



Ditos do Padres do Deserto

“Qual é o caminho estreito e apertado?" (Mt. 7,14). Ele respondeu: O caminho estreito e apertado é este, controlar seus pensamentos e despojar-se de sua própria vontade por amor de Deus.”

"No começo, há luta e muito trabalho para os que se aproximam de Deus. Mas, depois disso, há uma indescritível alegria. É como acender uma fogueira: no início há muita fumaça e seus olhos lacrimejam, mas depois você consegue o resultado desejado. Assim devemos acender o fogo divino em nós mesmos, com lágrimas e esforço."


O Caminho é com lágrimas, o caminho é com esforço, o que torna a passagem tão estreita. Nos dispomos a seguir o Cristo, mas sempre com reservas. O fato é que, na verdade, não queremos nenhuma forma de sofrimento. Não queremos desapegar completamente, só de forma superficial. “Deixa tudo e segue-me”- não paramos para refletir a complexidade das palavras do Cristo.
Esta viajem, longe de meu País, trouxe-me uns “insights” de que as palavras acima dos Padres do Deserto são de uma exagerada veracidade. Não que seja condição para seguir o Cristo a luta, o trabalho, a dor, mas estarmos cientes de que na trajetória haverão pedras é de suma importância. Adoro uma frase que ouvi do padre Fábio de Melo: “Se você não puder modificar um fato, deixe que o fato te modifique”. A frase é linda e de efeito, todavia aplicá-la na vida é muito difícil. Porque esse fato imodificável vem acompanhado de dor e abraçarmos o sofrimento como circunstância transformadora de personalidade é desafiador, em termos práticos.
Bem, mas tudo isso vem envolto com muito mistério e tenho certeza que só a Graça Divina pode aflorar nosso discernimento no caminho espiritual.
Nossa viajem chegou ao fim, todavia tudo que experimentamos aqui, não. Passar por lugares sagrados, meditar num mesmo lugar que uma pessoa santa meditou, essas coisas ficam meio impregnadas na gente. O mais curioso é que esta experiência influencia-nos demais, mas não conseguimos explicar exatamente de que forma. Como já falei, você volta da Índia e fica ainda digerindo tudo que aconteceu, digestão esta que talvez leve anos, ou uma vida inteira. Mas tenho certeza que muitas respostas hão de surgir com o tempo. É sempre tudo uma questão de tempo, ou de admitirmos que para Deus não há tempo algum, só o momento presente, que experimentarmos Deus de fato na nossa vida pode acontecer no próximo instante, na sua próxima inspiração, na minha próxima expiração...
Gostaria de agradecer a todos que viajaram virtualmente conosco, dando-nos uma palavra amiga, compartilhando idéias e experiências, obrigada!

Dia frio “com neve e tudo” em Londres


Em Londres 1


Um dos objetivos da passagem por Londres era fazer aulas de yoga com Giovanni Felicioni. Ele é rolfista, portanto, conhecedor em extremo do corpo humano, e professor de yoga há muitos anos. O Carlos já foi aluno dele enquanto morou aqui em Londres e já havia me falado muito bem a seu respeito. Já com boas referências, posteriormente tirei minhas próprias conclusões: Giovanni pode ser resumido numa simples palavra: poesia. Ele envolve a todos com seu jeito lindo de ser e de se expressar, totalmente espontâneo, sem preconceitos. Quando ensina, lembra um pintor investigando uma mistura de tintas numa tela em branco. E, no final, gosta daquilo que fez.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Agradecimentos ao Kripa Foundation - Vasai


Textos sagrados, como o Upanishads nos ensinam a receber bem uma visita como o próprio Deus. São Bento também diz o mesmo. Na Bíblia, temos o ensinamento de Cristo dizendo que por onde passarmos e formos bem recebidos, permaneçamos, do contrário, que tiremos a poeira das sandálias e sigamos adiante. O Kripa, em especial através da pessoa de seu diretor, Bosco, colocam em prática, de uma maneira muito simples, o que os textos sagrados nos ensinam. A comida e as instalações são boas, mas o que nos cativa, na verdade, são os vários sorrisos amorosos que recebemos por todos os lados. Parece que o amor do Padre Joe Pereira e do Bosco não cabem dentro deles e contagiam a todos, cada funcionário, cada interno que aqui vem em tratamento. Nós, aqui, como visitas, não só nos sentimos em casa, mas também recebemos uma atenção amorosa através de gestos muito simples, como uma mãe, que recebe o filho nos braços. É assim que se pudéssemos ficaríamos por mais tempo e esperamos um dia poder retribuir o que nos foi dado. Namaste.

Cachorrinhos Indianos


Certa vez ouvi dizer que os indianos não gostam muito de cães, mas tenho que discordar disso. Pelo menos, por onde passei, percebi que os cachorrinhos são bem tratados, não encontrei ninguém que os maltratasse. Observei somente que não é costume do povo daqui ficar alisando muito, abraçando, como nós, brasileiros, costumamos fazer. Os gatos são os mais feinhos, ninguém liga muito para eles, mas também não ficam sem comer, nem são mal tratados. Aqui no Kripa de Vasai há muitos cães, gatos, marrecos, patos e galinhas. Senti-me em casa no meio da bicharada. O Padre Joe gostava tanto de um falecido cachorro seu que o enterrou aqui mesmo. Eu cheguei a conhecer o bichinho, era muito doce, faltava falar de alegria quando via o Padre. Assim, foi feito um túmulo com uma lápide para ele, onde constam o nome do cãozinho amado, suas datas de nascimento e morte, uma foto alegrinha do cão e uma linda oração do Padre, que assim diz: “Senhor,ajude-me ser a pessoa que meu cachorro Billy pensa que eu sou!”.
Aí vão algumas fotos dos meus amiguinhos:

Gatinhos e Patinhos




Cachorrinhos Indianos







quinta-feira, 13 de março de 2008

Com nosso amigo no Ashram


O Porteiro do Ramana Ashram que nunca falou uma palavra conosco (apenas fala em Tamil, o idioma local), mas mesmo assim se tornou nosso bom amigo, pois sempre que nos encontravamos nos cumprimentava com um sorriso amoroso e as mãos em prece, Namaste.

Vista do alto da Montanha Sagrada Arunachala


Entrada do Ramana Ashram


Autoconhecimento

O autoconhecimento é um caminho difícil de percorrer e requer principalmente coragem para trilhá-lho. Normalmente desviamos dessa estrada porque, não raro, o que encontramos à frente difere do que gostaríamos de ver. Uma vez feita a escolha, não há atalhos, nem desvios por uma paisagem mais agradável. No entanto, à medida que transpomos barreiras e seguimos adiante, ainda que o desânimo e a tristeza apareçam, superamos uma etapa.
Perceber é o mais difícil e reconhecer o que em nós precisa ser mudado é o desafio, porque não sabemos nem por onde começar. Mas, admitirmos a existência dessa dificuldade já é um grande passo. Eu, na minha experiência pessoal, vejo que na mesma proporção que os dias se passam e mergulho numa análise mais profunda, só me resta assegurar que nada sei, sou ainda uma aprendiz no que se refere a arte de viver bem comigo mesma e com todos os outros seres.
É assim que espero sinceramente que não desanimem quando optarem por uma viagem parecida cujo destino é conhecer-se melhor. Toda a proposta do yoga e da meditação tem o autoconhecimento como pilar principal, o que propiciará o encontro da tão desejada felicidade. Vocês certamente tropeçarão em inúmeras pedras nesta estrada, muita sujeira e poeira acumuladas vão aparecer, não se espantem. Ao contrário do que gostamos de ouvir: “- Nossa como você é gentil, como é bondoso!”, ninguém irá lhe dizer nada, você ouvirá sua própria voz interior dizendo-lhe: “-Como você é uma pessoa orgulhosa, egocêntrica, mesquinha! Entretanto, nesse processo do autoconhecimento, se pudermos encarar o feio que há em nós, sem sentimento de culpa, não estaremos nos enganando e abriremos espaço para transmutá-lo. A única condição é que você tenha olhos e estômago para esse encontro, não se condene e, a partir daí, com base nesse reconhecimento do que deve ser modificado, você terá a oportunidade de transcender seus piores defeitos e dificuldades.
Um conselho é que não tenha pressa, nem se acomode, mergulhe nesse processo o quanto antes. O importante é estarmos conscientes de que a mudança em nós não é nada infalível, inalcançável, mas que sozinhos a jornada torna-se árdua, pesada, portanto confiar na Graça Divina e com amigos espirituais é um passo muito importante, eu diria a melhor escolha a ser feita, porque você encontrará apoio e encorajamento para seguir em frente. Confiar sempre, ainda que não se compreenda, nem tenha a mínima noção de como chegar ao final. É no que estou apostando, por isso desejo partilhar isso com vocês!
Namastê!

quinta-feira, 6 de março de 2008

Ramana 2

Um inglês nos recomendou, quando perguntávamos a ele qual o melhor caminho para chegar a determinado lugar, que não nos preocupássemos tanto, pois a Índia está repleta de anjos: quando não se tem a mínima idéia de como fazer algo ou chegar a algum destino, eles aparecem e nos socorrem. Estão pelas ruas, nas estações de ônibus e trens, enfim, em qualquer lugar. Bem, já nos deparamos com alguns por aqui. Identificá-los? Não é tão fácil, mas uma característica neles se mantém: um olhar doce, um sorriso acolhedor. O swami Maheswaran, é uma dessas pessoas: todos os dias que passamos pela pedra onde ele costuma sentar-se, recebe-nos já de longe com as palavras “Bom dia”! Assim que descobriu que éramos brasileiros, recebeu-nos com este cumprimento. Homem inteligente, fala bem o inglês e procura descobrir a forma de cumprimentar cada pessoa no seu idioma pátrio. E é assim que encontrou uma forma simpática de comunicar-se com cada um que vem até a montanha. Todos os dias eu e o Carlos paramos um pouco e deixamo-nos contagiar com o seu bom humor. Às vezes conta uma história, outras fala muito pouco, mas estar ao seu lado tem um significado muito especial: têm-se a certeza de que Deus existe e que se manifesta em algumas pessoas nitidamente. De pés descalços, só um pano na cintura, a primeira vista parece não possuir nada, contudo basta estar perto dele por alguns minutos e percebe-se que ele tem muito mais que se imagina: o divino está tão presente nele que sua alegria é contagiante, não reclama de nada e tudo para ele está tão perfeito que só lhe cabe um sorriso gostoso na face. Levei-lhe duas laranjas esta manhã e ele exclamou alegremente: -“Como Deus é bom!” Subitamente, uma expressão gentil e amorosa se fez perceber em seu rosto e o antídoto contra a infelicidade se fez presente: a arte de agradecer sempre, com o pouco, ou com o muito que se tem.

domingo, 2 de março de 2008

Ramana 1

No ahsram onde estamos agora, estritamente hindu, o cotidiano é um pouco diferente. Rituais védicos todos os dias, pujas, cantos. Há uma sala de meditação aberta o dia todo que sempre está cheia. Mas por toda a parte vê-se alguém meditando: dentro do templo, nos jardins, em frente a túmulos de suames ou de imagens de deuses hindus por eles reverenciados. A foto do guru do ashram, Bhagavan Sri Ramana Maharishi, já falecido, está em todo lugar. Percorrendo uma trilha pela montanha, pode-se chegar a uma caverna onde ele permaneceu em silêncio por aproximadamente 20 anos, onde alcançou o Samadhi, ou realização em Deus.
A caverna é um recanto de paz. Lugar inspirador, pode-se ficar meditando sem perceber o tempo passar. Pessoas do mundo todo não medem esforços para estar neste lugar onde dúvidas inúmeras são respondidas intimamente. Fala-se por aqui que se deve fazer o trajeto todo em silêncio, focando nos obstáculos que você deseja remover para sua ascensão no progresso espiritual. O fato é que independente da religião, credo, convicções próprias, não há como se negar a energia espiritual que envolve a Montanha de Arunachala.
Os dias vão passando e a gente vai vivendo coisas na Índia que não se compreende o significado a primeira vista. É como nos disse uma amiga , você volta para o Brasil e ainda não acabou de digerir o que aconteceu aqui. Imagino que a compreensão só se dê com o tempo mesmo. O que tenho percebido é que por conta do espiritual ser de extrema relevância, tudo o mais que te afaste do foco em Deus torna-se desprezível no ambiente do ashram, e você acaba incorporando isso em ações simples do dia-a-dia. Tanto o pessoal que trabalha aqui quanto os estrangeiros vestem-se de forma muito simples. Nada daquelas roupinhas indianas que estamos acostumados a ver no Brasil, cheia de brilhinhos e bordados. Pés sempre descalços, não são permitidos o uso de sandálias em praticamente nenhum lugar. Não há talheres e a comida é servida numa folha de bananeira. E é assim que a Índia nos lembra a todo instante que só há algo de real importância: união com Deus. Perguntei para um sadu o significado de sua pintura com cinzas na testa, no que me explicou que o fazem para lembrar que tudo é impermanente, para manter a morte bem na frente dos próprios olhos. As cinzas representam que do pó viemos e nosso final último será esse também, não importa o que façamos para que isso não aconteça. Assim, uma vez que mergulhamos na consciência da efemeridade do nosso corpo físico, vive-se o momento presente muito melhor. E o que tenho sentido nesses últimos dias é que sabemos disso na teoria muito bem, mas como no Ocidente as pessoas não gostam de falar na morte, acaba tudo ficando de fato muito teórico. Ao contrário, vivendo num ashram estas questões sobre vida e morte não são faladas a todo instante, mas sentidas, conduzindo-nos a uma reflexão mais séria de como estamos conduzindo a vida. Será que a busca espiritual tem sido algo de real importância em nossas vidas, ou só teoria? Será que arrumamos tempo para isso, ou só desculpas? Cada um de nós pode responder a sua maneira, e se não estivermos satisfeitos com a resposta dada, podemos admitir a possibilidade de mudar o curso do rio, é o livre arbítrio com que nós, humanos, fomos presenteados por Deus. E assim, sermos conduzidos a um manancial de água cristalina, onde existe paz e felicidade.
Cabe a você escolher!
Namastê!

Vista da Montanha de Arunachala


Vaquinha feliz


Pessoal, pensem bem antes de comer aquele bifinho....já viu olhar mais doce que este?
Apresento-lhes a Mimosa:

Mamãe e seu baby macaquinho


Pump ou chuveiro indiano


Aqui também tem aula de "Pump", se você quiser tomar banho ou lavar sua roupa...a melhor maneira de manter-se em forma na Índia!

Crianças


As crianças indianas adoram tirar fotos. Estas estavam arrumadinhas para uma filmagem. Aí vai: